segunda-feira, 12 de abril de 2010

Consciência Incerta

10-04-2010
É deveras estranho o homem que se passeia de cabelo desalinhado e de barba por desfazer. As passadas longas e ritmadas fazem denotar a confiança que deposita no seu destino. Ei-lo! Um pau abandonado no meio da relva verde do jardim da cidade. Lá longe, arfante, um cão pouco elegante na sua corrida mas igualmente confiante nas suas pisadas é desviado do destino do homem, para correr atrás daquela que será a sua presa mais fácil. O homem estranho, sem perder o rasto do canídeo, procura o banco de jardim mais próximo para se sentar. Estava um dia perfeito para uma tarde passada no jardim. Da lapela do casaco, saca aquilo que me pareceu ser um livro. Um livro de um couro escuro e de páginas amareladas. Consegui sentir-lhe o cheiro mesmo de longe. Já não era novo, mas o sorriso esboçado na cara do homem dizia que valia a pena. O cão aproximou-se com o seu prémio entre dentes, devolvendo-o orgulhosamente ao homem estranho. Com um afago, o cão senta-se nas patas traseiras, descansando o focinho nas patas dianteiras. Concentrado no livro, o homem começa a folhear as páginas comidas pelo tempo, de uma forma incrivelmente prazerosa. Como se empunhasse o livro pela primeira vez, tendo eu a certeza de que o livro já não pertencia a quem o havia escrito, mas sim àquele que agora se apropriava da sua leitura. O seu ar tranquilo e divertido em tudo contrastava com o cenário que o envolvia. Carros e pessoas que se passeavam frenéticos entre o piscar das luzes verdes e vermelhas, homens de virilidade abusada com bastões pesados amarrados à cinta, crianças histéricas, mulheres obesas e depressivas sujas de gelado. “Sofia!” - Alguém me chama na direcção do homem. Aproximo-me, e ao passar pelo seu banco (a sua morada), o homem estranho inclina-se sobre si próprio para mais um afago ao bicho. E nesse inclinar partilha com o cão, “O Miguel diz ter medo que a liberdade se torne um vício”. E numa gargalhada volta à tranquilidade da sua leitura.

domingo, 11 de abril de 2010

Pérolas a Porcos

25-03-2010
A diferença talvez esteja no intervalo entre a transparência e a mucosa social que se sobrepõe. Parece ser fácil escarnecer o social, no entanto, é bem mais difícil caminhar sobre a margem do normalizado. Há medida que vais avançando no enredo transfigurado, independentemente do ritmo das passadas, os vultos, outrora simpáticos, vão ficando cada vez mais decididos a entregar-te ao que já se transformou numa vala comum. Pessoas semelhantes passeiam-se acorrentadas numa posição desconfortável. De olhos pregados ao chão, vão desenhando círculos viciados, os quais reconhecem por VIDA. Círculos fechados, limitados por regras e valores cronológicos imutáveis, fazem adivinhar o futuro assertivo e conformado daqueles que à primeira vista, seriam humanos. Homens e mulheres comandados por um qualquer Mussolini que, por sua vez, balanceia cordões ocultos suspensos sobre eles e elas, impedindo-os assim de descarrilar. Os círculos permanecem intactos com a ajuda das suas marionetas. Na plateia, ao contrário do que acontece em palco, as reacções estão muito pouco uniformizadas. Voltados para o público para a vénia final, descobrem-se agora os rostos dos protagonistas. Um silêncio surdo abate-se sobre a sala. Eram, efectivamente, humanos. Á força de braços, apenas os inconformados sentem a alma fugir-lhes do corpo. De olhos cerrados naquilo que parecia uma queda sem fim, viram o corpo ganhar forma e posição para se juntar ao amontoado de silhuetas que agora padeciam no fundo de um precipício. Ainda tentam lutar contra o som das correntes arrastadas, mas em vão. Abre-se a cortina. Tum Tum Tum. E o público delira...