terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Neverland

Gostava de ter ainda a inocência de uma criança. Viver dos sonhos e da ilusão de viver numa só pessoa, múltiplos personagens. Personagens de longos vestidos, asas ao vento, espadas e espadachins, fadas e capuchinhos vermelhos. Ver para além da aparente simplicidade de uma teia, minuciosamente tecida por seres pequenos de irracionais. Ignorante ao sarcasmo dos auto-apelidados, adultos. Esses seres ignóbeis, exigentes nas boas acções e infiéis à sua prática. Pessoas negligentes na concretização dos seus próprios sonhos.

Hoje sei que não me quero confundir com essa gente. Sei que a criança que me viu crescer, não será capaz de abandonar este corpo e esta alma.

Uma criança consciente da sua inconveniência. Uma criança, que da sua janela, sempre vislumbrou a magnificência das cores que se desfilavam com a brisa das estações. Uma criança feliz na sua condição de “ser pequenino”. É tão mais fácil ser-se pequenino. Viver e sofrer pela Terra do Nunca.

No entanto, no discurso erudito dos nossos adultos, este, é um grave transtorno mental – Síndrome Peter Pan. Qual criança, sinto-me incapaz de gritar mais alto. Mas na minha condição de “ser pequenino”, vou continuar à janela. A janela das cores magnificentes que se desfilam com a brisa das estações.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Trouble Sleeping

Por estes dias, em que o sono se substitui frequentemente pela insónia, os sonhos transformam-se em janelas para o Mundo. No entanto, os meus sonhos, à semelhança do meu sono, traíram-me. Essas janelas passaram a ser sinuosas e claustrofóbicas. Longe vão os tempos em que esses pórticos de liberdade eram de um dourado vivo, condizente com a aura dos seus protagonistas. Uma palete de cores e de música animava todo aquele cenário. As almas livres e soltas, acompanhavam em gestos finos e dissimulados a calma das horas e das pálpebras encerradas. Por estes dias, a miscelânea de cores esgueirou-se pela fissura remanescente. Garras iradas transformaram esse pórtico numa tela suspensa e uniforme. Uma tela sem vida, sem cor, nem música. Uma tela sobejamente calada. Num acto de curiosidade humana, tento esgueirar-me pelas fissuras que me arranham e que me agarram. São fissuras demasiado pequenas mesmo para uma figura anímica. A muito custo consigo enganar aquilo que me prendia. Do outro lado da tela, num espaço restrito e geométrico, um toque de mensagem. “Feliz Ano Novo”. Só então percebi que havia acordado do sonho provocado pelo falso sono da insónia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CARPE DIEM 365

Á parte do emaranhado de pessoas agrupadas num centro geométrico, acendo um cigarro. Pessoas graciosamente vestidas. As luzes intermitentes fazem adivinhar as mulheres que se passeiam de saltos e lantejoulas. Nesse piscar furioso, são também visíveis as gravatas desalinhadas nos pseudo-homenzinhos, que se fazem acompanhar por copos alcoolizados. A música estridente e a nostalgia hipócrita dos 364 dias vividos, fazem despertar novas filosofias. CARPE DIEM. Homens famintos que, do alto da sua jovialidade, procuram saciar-se nas fêmeas, cujos movimentos, se assemelham a uma qualquer dança de acasalamento. As horas vão passando e, da mesma forma que o jantar de véspera passa a servir de fertilizante na relva, as línguas trocadas são cada vez mais frequentes. Como que epidémico, independentemente do espaço e das pessoas, mãos estranhas tocam corpos estranhos. E na estranheza de uma filosofia que começa e termina na mesma noite, pessoas desconhecidas agem como se de conhecidas se tratassem e, por escassos minutos de regozijo, no último dia do ano, são estupidamente felizes. Pisando o cigarro num pé de dança, faço por me perder naquela orgia sublime.

Boomerang ao Destino

As perguntas ausentes de respostas vão surgindo como se de necessidades fisiológicas se tratassem. Sinto-me exausta. Por estes dias, tudo aparece sob a forma de déjà vú. Já nem o meu Cérebro consegue acompanhar a doença da minha alma. Uma alma humana. Uma alma necessariamente inconstante e corrompida pelo medo do amanhã. Vivo com pressa. Os anos e os meses transformaram-se em segundos, as horas, as meias-horas e os minutos deixaram de existir. Sinto que o boomerang que entreguei ao destino no início da minha existência vai voltar para mim… Mas temo que ele me encontre de costas voltadas. Hoje não sei nada. Melhor, acho que sei tudo sobre o nada e rigorosamente nada sobre tudo. Vivo sôfrega pelo abstracto, ao ponto de repudiar o trivial. Hoje não vejo o que os outros vêem. Não sinto como os meus semelhantes. Não procuro o mesmo que eles…
Isso faz de mim o quê?!
Um Ser sem razão ou um ser ausente de sentido e sentimento?!