terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vida Quieta

Ao abrir a porta, o bafo quente e confortável da casa acaricia-me o rosto. Á medida que vou entrando, vou despindo a roupa, já pesada no meu corpo. Para trás fica a mochila e um dia longo. Ligo o chuveiro e, sem esperar pelo correr da primeira água quente, entro na banheira. O choque térmico arranca de mim um gemido sentido. Num acto de puro masoquismo, ergo a cabeça e sem um “ai” dizer, sinto a água gelada percorrer cada centímetro do meu corpo. Sinto o cérebro gelar e respirar é cada vez mais difícil. É o primeiro momento do dia em que não consigo pensar… Já enrolada na toalha e de corpo ainda molhado, dirijo-me à janela. No parapeito, um maço de cigarros e uma garrafa de whisky. Dou um nó no cabelo molhado, acendo o cigarro e acompanhada de um líquido dourado, sento-me confortavelmente. Só a boca larga do copo é capaz de me embebedar o olhar. Sinto lágrimas nos olhos… Lágrimas artificiais, provocadas pelo álcool. Ao olhar a rua ainda molhada da chuva, de espelhos disfarçados de poças de água, perco-me nos meus pensamentos. Eles pensam em mim e na minha incapacidade de não pensar. Odeiam-me por pensar demasiado. Também pensam no Outro, pensam Nele, no Tal. Naquele que escondido e perdido me enlouquece. No debate aceso que vai entre o sentimento e o racional, tento com espadas bêbadas e lufadas de ar tóxico, CALAR as vozes parcas de verdade. O rádio despertador, mais confuso que Eu, começa a tocar uma qualquer música. Uma voz de Homem parece cantar para um coração de Mulher. Por momentos deixo-me acreditar ser essa Mulher. Lágrimas reais invadem-me o rosto, e na solidão de um copo de whisky, deixo-me adormecer.
Long time ago
Mary Jane