quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Legado


A vida acontece e, ao contrário das justificações que os adultos encontravam para evitar as perguntas inconvenientes das crianças, nada fica mais claro quando crescemos. O monstro bizarro que, em tempos vivia debaixo das nossas camas, transformou-se em fantasmas visíveis e irrequietos, espalhados por todas as divisões da casa da consciência.
A racionalidade transformou-se em perguntas sem respostas evidentes, que se arrastam à espera do seu tempo. Nada é como deveria ser, ninguém é o que as preces anunciavam, as coisas não existem em lugares certos e o Mundo como nós o conhecemos, foi construído por um único Homem, em sete dias.
Certezas transformam-se em dúvidas e pessoas outrora singulares, procuram o equilíbrio ordinário de pessoas aparentemente sãs. Seres disformes deixam de questionar o Ser numa tentativa hipócrita de tentar ser a razão que nunca ambicionaram. As sensações são substituídas por sentimentos, entendidos por todos como capacidades inatas ao ser parado na sua Humanidade. As regras substituem-se por excepções e para além dos dias que agora se desfilam nas suas 25 horas, todos passamos a ser capazes de mudar a fórmula circular para uma lógica linear que começa e acaba em nós.
Uma voz murmúria e distante: “jogo de cintura, poder de encaixe”. Sem qualquer tipo de contexto, mantenho o olhar fixo e inconsciente nos ponteiros de um relógio arrastado de cansado.
Nunca percebi a necessidade de encaixe exaltada por pessoas ajoelhadas sobre grãos de milho. Eu gosto das sensações ausentes de sentimentos e dos sentimentos ausentes de bulas e contra-indicações. Gosto de ver o Mundo pela janela minúscula da câmara digital e sentir a impotência de quem não consegue disparar com medo de perder aquilo que está a sentir. De vestir e despir personagens em simultâneo num ambiente uniforme enfarpelado de rostos sadios e de abandonar o meu próprio corpo para deleitar a anormalidade sádica da minha existência.
De pincéis desajeitados, pinto a minha consciência de mim. Da figura humana que se desfila de rosto lânguido e voz abafada na camuflagem criada pela apatia de quem queria ser sem nunca o ter sido.

Um falso legado, perdido na tridimensionalidade perniciosa do ser.


Mary Jane

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vida Quieta

Ao abrir a porta, o bafo quente e confortável da casa acaricia-me o rosto. Á medida que vou entrando, vou despindo a roupa, já pesada no meu corpo. Para trás fica a mochila e um dia longo. Ligo o chuveiro e, sem esperar pelo correr da primeira água quente, entro na banheira. O choque térmico arranca de mim um gemido sentido. Num acto de puro masoquismo, ergo a cabeça e sem um “ai” dizer, sinto a água gelada percorrer cada centímetro do meu corpo. Sinto o cérebro gelar e respirar é cada vez mais difícil. É o primeiro momento do dia em que não consigo pensar… Já enrolada na toalha e de corpo ainda molhado, dirijo-me à janela. No parapeito, um maço de cigarros e uma garrafa de whisky. Dou um nó no cabelo molhado, acendo o cigarro e acompanhada de um líquido dourado, sento-me confortavelmente. Só a boca larga do copo é capaz de me embebedar o olhar. Sinto lágrimas nos olhos… Lágrimas artificiais, provocadas pelo álcool. Ao olhar a rua ainda molhada da chuva, de espelhos disfarçados de poças de água, perco-me nos meus pensamentos. Eles pensam em mim e na minha incapacidade de não pensar. Odeiam-me por pensar demasiado. Também pensam no Outro, pensam Nele, no Tal. Naquele que escondido e perdido me enlouquece. No debate aceso que vai entre o sentimento e o racional, tento com espadas bêbadas e lufadas de ar tóxico, CALAR as vozes parcas de verdade. O rádio despertador, mais confuso que Eu, começa a tocar uma qualquer música. Uma voz de Homem parece cantar para um coração de Mulher. Por momentos deixo-me acreditar ser essa Mulher. Lágrimas reais invadem-me o rosto, e na solidão de um copo de whisky, deixo-me adormecer.
Long time ago
Mary Jane

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Deixa Morrer

Somos seres errantes. Erramos na forma de querer ser aquilo que não somos. Sentimo-nos no direito de sentir a dor através de outros, de outros que, como nós, se dizem sofridos pela dor que muitos outros diziam sentir. Sentimo-nos desparazitados quando nos sentimos especiais. Sentimo-nos iguais quando não passamos de figuras banais. Enganamos a verdade sem ver que a mentira do querer mais se apodera de nós. Às voltas e contravoltas lançamo-nos na beira do abismo à procura do prazer em explosões de adrenalina. De passos indiferentes, sentimos o chão que se deixa escorregar debaixo dos pés. Vemos o diferente sem notar que é igual e o igual indiferente ao diferente. Ambicionamos ser diferentes, sem nunca notar que não passamos de meros objectos que se deixam balançar no Ser preso à cúpula do crânio. Ocos de sentido, de significado e significância, estacamos pendurados, sôfregos da Vida que deixou de ser nossa, para passar a ser dos outros. Os outros, que também ao nosso lado, permanecem balançantes num fundo adormecido pela apatia de quem queria ser sem nunca o ter sido.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Opiate

02-06-2009
O pensar talvez seja a constante da nossa vida. Ultimamente tenho vomitado palavras. Palavras interrogadas preenchem páginas em branco. E nesta mania de procurar o sentido das palavras enquanto escrevo, acabo por esquecer o mais importante, a pontuação. As pausas. Momentos vazios que nos preenchem igualmente. [Pausa] Talvez seja o falar de Nada como forma de evitar o todo de uma existência perturbada. Hormonas anárquicas obrigam-me a cuspir a ideia do caos. Um caos instalado sobre um olhar observador e omnipresente que insiste em repelir o significado das leituras lineares dos animais parados sobre duas pernas. Bichos racionais que à força de ferros quentes espetados nas costas, transformaram essa racionalidade na irracionalidade que eu hoje conheço. Já nada mais nos une, a não ser a marca desenhada do ser social que uma vez fui. Agora, já sem receio de ferros e possíveis marcas, deixo-me questionar pela artificialidade da Vida que me tentam impingir. Viver com a bíblia social encerrada na mesa-de-cabeceira ajudou-me a trajar a máscara que me protege. Uma máscara vestida a meio-tempo pela aparência, mas jamais adormecida pela alma que a enverga. Um ser prático na complexidade dos outros e impraticável no simplório de si mesmo. [Pausa]

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Consciência Incerta

10-04-2010
É deveras estranho o homem que se passeia de cabelo desalinhado e de barba por desfazer. As passadas longas e ritmadas fazem denotar a confiança que deposita no seu destino. Ei-lo! Um pau abandonado no meio da relva verde do jardim da cidade. Lá longe, arfante, um cão pouco elegante na sua corrida mas igualmente confiante nas suas pisadas é desviado do destino do homem, para correr atrás daquela que será a sua presa mais fácil. O homem estranho, sem perder o rasto do canídeo, procura o banco de jardim mais próximo para se sentar. Estava um dia perfeito para uma tarde passada no jardim. Da lapela do casaco, saca aquilo que me pareceu ser um livro. Um livro de um couro escuro e de páginas amareladas. Consegui sentir-lhe o cheiro mesmo de longe. Já não era novo, mas o sorriso esboçado na cara do homem dizia que valia a pena. O cão aproximou-se com o seu prémio entre dentes, devolvendo-o orgulhosamente ao homem estranho. Com um afago, o cão senta-se nas patas traseiras, descansando o focinho nas patas dianteiras. Concentrado no livro, o homem começa a folhear as páginas comidas pelo tempo, de uma forma incrivelmente prazerosa. Como se empunhasse o livro pela primeira vez, tendo eu a certeza de que o livro já não pertencia a quem o havia escrito, mas sim àquele que agora se apropriava da sua leitura. O seu ar tranquilo e divertido em tudo contrastava com o cenário que o envolvia. Carros e pessoas que se passeavam frenéticos entre o piscar das luzes verdes e vermelhas, homens de virilidade abusada com bastões pesados amarrados à cinta, crianças histéricas, mulheres obesas e depressivas sujas de gelado. “Sofia!” - Alguém me chama na direcção do homem. Aproximo-me, e ao passar pelo seu banco (a sua morada), o homem estranho inclina-se sobre si próprio para mais um afago ao bicho. E nesse inclinar partilha com o cão, “O Miguel diz ter medo que a liberdade se torne um vício”. E numa gargalhada volta à tranquilidade da sua leitura.

domingo, 11 de abril de 2010

Pérolas a Porcos

25-03-2010
A diferença talvez esteja no intervalo entre a transparência e a mucosa social que se sobrepõe. Parece ser fácil escarnecer o social, no entanto, é bem mais difícil caminhar sobre a margem do normalizado. Há medida que vais avançando no enredo transfigurado, independentemente do ritmo das passadas, os vultos, outrora simpáticos, vão ficando cada vez mais decididos a entregar-te ao que já se transformou numa vala comum. Pessoas semelhantes passeiam-se acorrentadas numa posição desconfortável. De olhos pregados ao chão, vão desenhando círculos viciados, os quais reconhecem por VIDA. Círculos fechados, limitados por regras e valores cronológicos imutáveis, fazem adivinhar o futuro assertivo e conformado daqueles que à primeira vista, seriam humanos. Homens e mulheres comandados por um qualquer Mussolini que, por sua vez, balanceia cordões ocultos suspensos sobre eles e elas, impedindo-os assim de descarrilar. Os círculos permanecem intactos com a ajuda das suas marionetas. Na plateia, ao contrário do que acontece em palco, as reacções estão muito pouco uniformizadas. Voltados para o público para a vénia final, descobrem-se agora os rostos dos protagonistas. Um silêncio surdo abate-se sobre a sala. Eram, efectivamente, humanos. Á força de braços, apenas os inconformados sentem a alma fugir-lhes do corpo. De olhos cerrados naquilo que parecia uma queda sem fim, viram o corpo ganhar forma e posição para se juntar ao amontoado de silhuetas que agora padeciam no fundo de um precipício. Ainda tentam lutar contra o som das correntes arrastadas, mas em vão. Abre-se a cortina. Tum Tum Tum. E o público delira...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fora de Horas

- Inspira

E o tempo passa, qual gazela, na frente de um velho de andarilho. Ventos de um só sentido fazem desfilar oportunidades e seres habitados de realidade e despojados de alma. Máscaras, ignorantes de LIBERDADE tentam ensinar-me a VIVER. P’ra Puta com todos eles. O ar tóxico inalado alimenta a juba inconformada de um cérebro talvez humano, mas muito pouco tratável. A linha recta, outrora traçada na palma da minha mão, hoje, entra em desalinho. Diz o que quer para aqueles que não o querem ouvir. [Verdades inconvenientes]. O pólo negativo, hoje atrai o positivo e, aquilo que até agora era positivo, passou a ser negativo. [Para ti, talvez, mas não para mim.] Hoje, dia em que o álcool me oxigena o cérebro, é o dia em que a liberdade da minha alma atinge o ponto mais orgásmico da sua existência. Hoje faço parte das pessoas desequilibradas. As tais pessoas que vivem as sensações sem serem censuradas.

- Expira

(Pausa)

- AHHHHHHHHHHHHH!