A vida acontece e, ao contrário das justificações que os adultos encontravam para evitar as perguntas inconvenientes das crianças, nada fica mais claro quando crescemos. O monstro bizarro que, em tempos vivia debaixo das nossas camas, transformou-se em fantasmas visíveis e irrequietos, espalhados por todas as divisões da casa da consciência.
A racionalidade transformou-se em perguntas sem respostas evidentes, que se arrastam à espera do seu tempo. Nada é como deveria ser, ninguém é o que as preces anunciavam, as coisas não existem em lugares certos e o Mundo como nós o conhecemos, foi construído por um único Homem, em sete dias.
Certezas transformam-se em dúvidas e pessoas outrora singulares, procuram o equilíbrio ordinário de pessoas aparentemente sãs. Seres disformes deixam de questionar o Ser numa tentativa hipócrita de tentar ser a razão que nunca ambicionaram. As sensações são substituídas por sentimentos, entendidos por todos como capacidades inatas ao ser parado na sua Humanidade. As regras substituem-se por excepções e para além dos dias que agora se desfilam nas suas 25 horas, todos passamos a ser capazes de mudar a fórmula circular para uma lógica linear que começa e acaba em nós.
Uma voz murmúria e distante: “jogo de cintura, poder de encaixe”. Sem qualquer tipo de contexto, mantenho o olhar fixo e inconsciente nos ponteiros de um relógio arrastado de cansado.
Nunca percebi a necessidade de encaixe exaltada por pessoas ajoelhadas sobre grãos de milho. Eu gosto das sensações ausentes de sentimentos e dos sentimentos ausentes de bulas e contra-indicações. Gosto de ver o Mundo pela janela minúscula da câmara digital e sentir a impotência de quem não consegue disparar com medo de perder aquilo que está a sentir. De vestir e despir personagens em simultâneo num ambiente uniforme enfarpelado de rostos sadios e de abandonar o meu próprio corpo para deleitar a anormalidade sádica da minha existência.
De pincéis desajeitados, pinto a minha consciência de mim. Da figura humana que se desfila de rosto lânguido e voz abafada na camuflagem criada pela apatia de quem queria ser sem nunca o ter sido.
Um falso legado, perdido na tridimensionalidade perniciosa do ser.
Mary Jane
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