Lá fora, a chuva parece manter um diálogo forçado com a parte exterior da janela. No interior, o bafo quente da lenha crepitante, pinta as maças do meu rosto de vermelho. Cenário perfeito para um transe profundo. Concentrada nas labaredas furiosas e no copo esquecido, de um líquido dourado, oiço vozes. Assustada, num girar de cabeça imortal, olho em meu redor. Apenas o reflexo da lareira na janela que me observa. De respiração ainda alterada, volto à abertura brilhante que me aquece. Num trago lento, as vozes, que há segundos me haviam despertado, voltaram a soar. E à medida que o veneno alcoolizado percorre a minha língua arrepiada, as vozes outrora distantes e imperceptíveis, são agora de humanos proferidas. Já de copo baixo, sinto o líquido escorregar. Parou. Uma onda de calor percorreu todo o meu peito e… ei-las. Vozes de mulheres. Eram vozes gritantes, vozes iradas e incongruentes de mulheres histéricas e mal amadas. Mulheres que se batem e amortizam por espaço. Mulheres que procuram, na racionalidade humana, falar a uma só voz. De peito arfante e em gestos trémulos, tento silenciar as vozes imperturbáveis. Mas cedo percebi que de física não se tratava. As mulheres sequiosas de tudo e incondicionais sobre o nada, eram apenas a manifestação da bipolaridade viva em mim.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Bipolaridade é ser branda com as vozes se são muitas e sequiosas nao será multipolaridade?
ResponderEliminarLiquido dourado esse Jay-D... *